Estamos apenas começando a entender as transformações profundas e duradouras que nossa sociedade vem sofrendo durante a pandemia da Covid-19. Desde que os primeiros casos se tornaram conhecidos em dezembro de 2019, nós tentamos examinar as principais tendências. O jornalista Norman Gall, diretor executivo do Instituto Braudel, tem se dedicado em reportar e pesquisar sobre a América Latina e a economia mundial desde 1961. À medida que a pandemia avança, seções sobre diferentes aspectos desse problema civilizacional serão publicados quinzenalmente em capítulos no nosso site. 

Bicho de 7 cabecas.png

1. Uma Nova Época

 

 
Arte Peste Braudel Papers.jpg

Peste Negra (1347 – 1352)

      Jamais na história do mundo uma pandemia provocou uma virada econômica global tão repentina. A pandemia do coronavírus (covid-19) atinge bilhões de pessoas em todos os continentes e iniciou mudanças para o futuro. Após analisar os eventos recentes, esta edição dos Braudel Papers tentará explorar questões de longo prazo que aparecem no horizonte com surpresas que o mundo luta para entender.

     As medidas emergenciais cresceram em vários países depois que especialistas em saúde pública do Imperial College, Londres, previram, em março de 2020 510.000 mortes na Grã-Bretanha e 2,2 milhões nos Estados Unidos, se a pandemia não fosse controlada, alertando: “O impacto global da COVID-19 tem sido profundo e representa a maior ameaça à saúde pública, de um vírus respiratório, desde a pandemia de influenza de 1918", conhecida como a gripe espanhola, matando dezenas de milhões de pessoas.  "Enfrentamos a maior ameaça de um holocausto médico nos últimos tempos", observa o economista Luis Eduardo Assis, membro do Instituto Fernand Braudel. As emergências geradas pela pandemia também estão provocando grandes mudanças estruturais na economia e sociedades, ameaçando compromissos políticos a longo prazo.

     A fusão da pandemia com uma crise financeira internacional constitui um evento único. Como o contágio se espalhou tão rapidamente, com as doenças infecciosas impactando os mercados financeiros, em tão grande escala, ainda está para ser claramente explicado. No entanto, reflete a facilidade de comunicação jamais vista antes entre regiões e sociedades do mundo. "É muito provável que a economia global sofra sua pior recessão desde a Grande Depressão, superando o impacto da crise financeira global há uma década", disse Gita Gopinath, economista-chefe do FMI. “O impasse, como se pode chamar, é projetado para diminuir drasticamente o crescimento global. Como numa guerra ou crise política, haveria sérias incertezas sobre a duração e a gravidade do choque”. O FMI viu um encolhimento da economia mundial em 2020.

     As incertezas variam desde a confirmação de taxas de mortalidade em regiões atingidas até os benefícios de usar máscaras fora dos hospitais. A incerteza assombra os funcionários do hospital. “Para esta pandemia, nenhum conhecimento o ajudaria”, disse a Dra. Vasantha Kondamudi, diretora médica de um hospital público em Nova York. “Essa pandemia, ninguém sabe de nada. É novo para todos, para o mundo inteiro. ”

     A maioria das previsões antecipou uma curva dos países ricos com a seguinte característica: um aumento repentino de casos e mortes, permanecendo em níveis de pico por um curto período, seguido por declínios rápidos e volta a aparente normalidade com níveis mais baixos de propagação. Mas os casos e mortes aumentavam de novo na Europa e nos Estados Unidos. Essas projeções frequentemente erram, deixando de notar novas ondas de infeção, com temporadas diferentes em diferentes regiões do mundo. Erram também ao confundir a COVID-19 com outras doenças infecciosas e enormes diferenças na qualidade das instituições de saúde pública entre as regiões mais ricas e mais pobres. No século passado, a pandemia de gripe ocorreu em três ondas, sendo a segunda fase registrada como a mais severa. Mas agora, isso pode ser diferente.

     Robert Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, alertou que os meses de inverno de 2020-01 “serão os tempos mais difíceis na história da saúde pública desta nação", com mortes por COVID caindo levemente conforme chegam a 600.000 em março. “Teremos uma epidemia de gripe e uma epidemia de coronavírus ao mesmo tempo”, disse Redfield, acreditando que as infecções por covid-19 podem ser 10 vezes mais comuns do que as registradas. A análise estatística em janeiro de 2021 de 59 nações e estados pelo The Wall Street Journal mostrou que 2,8 milhões de pessoas perderam a vida durante a pandemia, um aumento de 12% nas mortes relatadas em relação à média dos anos anteriores.

     Agora, o Brasil lidera o mundo com cerca de 400.000 mortes por covid, ultrapassando os Estados Unidos, mas as mortes não registradas poderiam elevar o total a 500.000 de acordo com Alexandre Kalache, gerontologista e ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS). A média de número de mortos do Brasil, que superou 4.000 mortos por dia no dia 6 de abril, equivale a 13% do total registrado no mundo com menos de 2% da população mundial. As emergências de covid reduziram tratamentos de diabetes, detecção de câncer e vacinação de crianças. “Isso vai aumentar a mortalidade”, disse Márcia Castro, demógrafa da Universidade de Harvard. “A mensagem é clara, direta e simples: o impacto demográfico dessa pandemia tira quase duas décadas de progresso em redução da mortalidade no Brasil. ” A pandemia reforça o impacto de falhas institucionais, como uma liderança sem legitimidade política, crime endêmico e corrupção, inflação crônica, falha de infraestrutura e falta de investimento púbico, que ameaçam a sobrevivência do Brasil como uma sociedade organizada em sua forma atual.


    Algumas dúvidas para o mundo persistem: Quanto tempo mais vai durar essa pandemia? Será que a covid-19 será incorporada às doenças endêmicas que enfraquecem, mas não ameaçam as comunidades? Como elas podem ser influenciadas por invenções em tecnologia médica? Que níveis de habilidades, investimento e solidariedade são necessários para sustentar a saúde de sociedades complexas?

 

2. Depois da Gripe Espanhola

     

grafico braudel papers.png

Washington Post, 22 de Fevereiro, 2021

    A gripe espanhola foi um evento global que ainda assombra muitos epidemiologistas. "É possível que a pandemia de 1918-1920 tenha sido, em termos de números absolutos, o maior choque demográfico que a espécie humana já recebeu", escreveu Alfred Crosby na The Cambridge World History of Human Disease.  “A Peste Negra (da Idade Média) e as Guerras Mundiais I e II mataram porcentagens mais altas das populações em risco, mas levaram anos para ocorrer e não foram universais em sua destruição. A chamada gripe espanhola matou a maior parte em um período de seis meses e atingiu quase todas as populações humanas da Terra”. Desde então, as estimativas de mortos pela gripe espanhola variaram amplamente, de 22 milhões a 100 milhões, negligenciando muitas mortes na Ásia e na África. Possivelmente respondendo por 40% de todas as mortes na pandemia, a Índia britânica estimou a princípio seis milhões de mortes, mas as contas foram revisadas para cima pelos estudiosos para chegar a 20 milhões. Efeitos persistentes em todo o mundo duraram mais de uma década.

     No Brasil, um século atrás, a gripe espanhola causou 300.000 mortes, incluindo a do então presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves. No Rio de Janeiro, as farmácias fecharam em 1918 por falta de funcionários saudáveis. Em cemitérios, caixões eram espalhados no chão por falta de coveiros. São Paulo instalou iluminação elétrica nos cemitérios para os enterros continuarem durante a noite. A cidade, com uma população de 500.000 habitantes, 350.000 foram infectados e 5.300 morreram.

      A gripe espanhola foi um feito da Primeira Guerra Mundial, que estimulou um crescimento financeiro e industrial, enquanto hoje a economia mundial está crescendo mais devagar com compromissos sociais caros que não existiam antes. “A coisa mais surpreendente sobre a pandemia [da gripe espanhola] foi mistério completo que a envolvia”, observou Maj. George A. Soper, um engenheiro sanitário escrevendo em 1919, quando se pensava que a gripe era uma infecção bacteriana. ” Os vírus ainda eram desconhecidos para a ciência, foram descobertos somente na década de 1930. A gripe, assim com o covid, não foram confirmados como virais até a década de 1990. Durante os três anos (janeiro de 1918 até dezembro de 1920), a pandemia de gripe espanhola infectou cerca de 500 milhões de pessoas, ou um terço da população mundial, matando pelo menos 50 milhões, incluindo de 550.000 a 675.000 nos Estados Unidos, ou, 0,66% da sua população, de acordo com pesquisadores do Federal Reserve (banco central) dos Estados Unidos das Américas e do MIT (Massachusetts Institute of Technology). Se as mesmas proporções fossem aplicadas hoje, a atual pandemia mataria dois milhões de pessoas nos Estados Unidos, de acordo com algumas projeções atuais.

     Após a pandemia de gripe espanhola de um século atrás, a economia mundial rapidamente reviveu. Mas a economia global de hoje é maior, mais complexa, mais urbanizada, mais integrada, com mais conhecimento médico e técnico, e ainda mais dependente de crédito público e das transferências financeiras dos governos. A pandemia está gerando novas preocupações na ciência e economia.

   Há comparações e contrastes gritantes entre a atual pandemia da covid e expansão financeira com os anos relativamente tranquilos e otimistas da década de 1920, antes da Grande Depressão dos anos 1930. O boom financeiro da década de 1920 é paralelo à expansão financeira global nas décadas anteriores ao crash do mercado acionário de 2008-9. Em ambas as experiências, o crescimento econômico foi sustentado pela maciça expansão financeira, com resultados decrescentes mais recentemente.

     Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde, após vários dias de debate interno, declarou uma emergência de saúde pública causada pelo surto covid-19 em Wuhan, China, mas os países em geral não prestaram atenção. Desde então, um enorme fluxo de informações tem sido fornecido diariamente ao público em geral. A Covid-19 pode ser a maior notícia desde a 2ª Guerra Mundial.  Muitas evidências detalhadas são fornecidas pelas principais agências de notícias com reportagens locais sobre o escopo da pandemia e as questões que ela levanta. No entanto, a confusão se espalha por mentiras grosseiras postadas em muitos sites da Internet.

     As estatísticas de mortalidade da COVID-19 refletem uma subnotificação generalizada. Uma comparação de mortalidade entre 2019 e 2020 em 14 países pelo Financial Times indicou 60% a mais de mortes por COVID-19 do que aquelas registradas. “A crise de COVID-19 expôs novamente as fragilidades dos sistemas sociais e econômicos e como elas podem representar um perigo”, escreve Andy Haldane, economista-chefe do Banco da Inglaterra. "Desta vez, a origem da ameaça é a saúde pública e não a riqueza financeira, mas, novamente, o risco é sistêmico e crônico".

     Problemas de escala geram incerteza. Cientistas do mundo todo estão compartilhando descobertas e informações, bem como competindo, em esforços intensivos para desenvolver novas vacinas. A velocidade e escala das descobertas científicas podem sobrecarregar, com 23.000 artigos de pesquisa aparecendo sobre diferentes aspectos da pandemia em seus primeiros quatro meses, dobrando de número a cada 20 dias. A descoberta pode ser irregular, sujeita a erros e revisões, antes que apareça qualquer avanço espetacular. “A Covid-19 é uma doença nova que exige o uso dos melhores modelos que podem estar errados, não por serem imprecisos, mas por não termos conhecimento suficiente sobre o vírus”, observa Hernan Chaimovich, bioquímico brasileiro. Em setembro, o National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos listou 3.086 estudos, dos quais apenas 272 seguiram padrões rigorosos de pesquisa clínica. Desde então, a pesquisa científica e médica tem crescido em escala e qualidade.

 

3. Novas Doenças

     

Screenshot_6.jpg
 

The Economist Road Map

     Enfrentamos novas e confusas contingências. Os cientistas podem prever o que pode ocorrer, mas não conseguem mobilizar uma ação estratégica. Novas doenças surgiram em um mundo mais populoso, com pessoas, animais de consumo e a vida selvagem vivendo mais próximos, com a população global quadruplicando desde a pandemia de 1918. Assim foi no sul da China, onde as grandes cidades se expandiram em florestas e terras agrícolas, com contato mais próximo entre as pessoas e a vida selvagem. Foi lá que a SARS apareceu há duas décadas, da mesma maneira que o coronavírus, novo tipo de patógeno que trouxe uma nova dimensão ao pensamento do mundo sobre as epidemias. Profissionais de biossegurança geralmente se concentram nas vacinas, em vez das difíceis e complexas deficiências institucionais do sistema de saúde pública.

     Poucos falam sobre a escala e o custo da mobilização política necessária para coordenar os profissionais de saúde e os recursos biomédicos para testar e tratar as pessoas com eficiência, colocá-las em quarentena e rastrear seus contatos. Este esforço enfrenta desafios logísticos, abrangendo uma vasta gama de produtores e cadeias de abastecimento, movendo vacinas e outros materiais perecíveis por longas distâncias, apesar da escassa capacidade de armazenamento e transporte, especialmente para frete aéreo. “O setor de logística não tem capacidade suficiente de frete aéreo, pessoal de manuseio em terra e equipamentos especializados para lidar com isso”, disse um executivo.

Nas últimas décadas, o mundo passou por seis pandemias virais: Gripe Asiática em 1957-58; Gripe de Hong Kong em 1968-69; SARS em 2002-03; AIDS; Ebola da África Ocidental em 2013-16; MERS em 2012-15; e o atual COVID-19, o mais virulento desde a gripe espanhola, há um século. Inicialmente, covid-19 é menos mortal do que a SARS, com uma taxa de casos / fatalidade 10 vezes menor. Mas a COVID se espalha mais rápido e amplamente, com muitas pessoas infectadas sem apresentar sintomas, espalhando a doença mais profundamente entre grandes comunidades urbanas. Enquanto a SARS matava mais de seus portadores, a COVID cria novos casos numa escala muito maior. Os sobreviventes da covid podem adquirir doenças de longa duração: fadiga severa, lapsos de memória, problemas digestivos, batimentos cardíacos irregulares, dores de cabeça, tonturas, flutuação da pressão arterial e queda de cabelo. Meses após a alta médica, alguns pacientes de covid ao redor do mundo desenvolveram distúrbios crônicos no cérebro. Outros perderam o paladar e o olfato. “Não vi nenhuma outra doença que afete tantos sistemas de órgãos diferentes como a covid”, disse Zijian Chen, diretor de cuidados pós-covid do Hospital Mount Sinai de Nova York.

      As epidemias atingem mais as pessoas pobres. Isso ocorre desde a praga bubônica dos tempos medievais na Europa até hoje. Em seu clássico Contos do Decamerão (1353), Giovanni Boccaccio fala dos italianos ricos de Florença refugiando-se da Peste Negra numa propriedade rural próxima para contar histórias, deixando mais expostos os moradores comuns da cidade, assim como em Nova York e São Paulo. Cidadãos mais ricos fogem para casas de campo ou ficam em quarentena em grandes apartamentos.

     Em Nova York, como em outras grandes cidades dos EUA, latinos e negros têm duas vezes mais chances do que brancos de morrer de COVID-19. As mesmas diferenças se aplicam entre comunidade brasileiras ricas e pobres, com contrastes culturais e raciais similares. Covid-19 é uma doença principalmente para os pobres e impotentes, sem atenção médica e forçados sair diariamente de suas casas e se misturar com a multidão para trabalhar. Na Califórnia, a mortalidade entre os padeiros aumentou em 50% e entre os cozinheiros de restaurantes em 60%.

4. Novas Ondas?

     

     Novos desafios surgem. A ciência produziu algumas conquistas notáveis em lidar com uma nova e dinâmica emergência global. Os cientistas e a Organização Mundial da Saúde divergirem sobre questões básicas, como se o vírus é transmitido principalmente pelo ar ou por superfícies infectadas e se lavar as mãos é importante como estratégia preventiva. No início desse anp ,Especialistas da Universidade Johns Hopkins reclamaram do caos na avaliação dos resultados dos testes:

     “Os Estados Unidos estão há mais de oito meses na pandemia e as pessoas estão à espera em longas filas para serem testadas, enquanto o coronavírus surge novamente. E ainda não existe uma norma federal para garantir que os resultados dos testes sejam relatados de maneira uniforme. Sem resultados uniformes, é impossível rastrear os casos com precisão ou responder com eficácia. ”

    As estimativas de mortalidade tendem a convergir em torno de 0,5% a 1,0% das pessoas infectadas, mas o covid-19 é muito mais contagioso do que a maioria das outras infecções virais, causando mais mortes. Mesmo assim ainda há incerteza quando se trata da imunidade de rebanho: se infecções virais do passado fornecem a população proteção temporária ou residual de possa proteger de contágios atuais. Descobertas recentes apontam que a imunidade adquirida através da infecção tende a cair dentro de algumas semanas ou meses. O diretor executivo da OMS, Michael Ryan, avisou que “nós devemos fazer o que for possível para impedir a transmissão e não contar com a imunidade de rebanho para nossa salvação”. O acesso a vacinas é desigual e irregular em todo o mundo com o desenvolvimento de novas variantes do covid, reduzindo a esperança de acabar com a fase aguda da pandemia em 2021, de acordo com a brasileira Mariângela Simão, diretora assistente da OMS.

     A imunidade do rebanho é importante. A OMS relata que a vacinação não havia começado em 130 países até fevereiro de 2021, enquanto três quartos de todas as doses consumidas em todo o mundo ocorreram em apenas 10 países. Surpreendente é a baixa mortalidade de covid relatada em muitos países pobres, que em parte pode ser causada por um registro falho. Mas a idade pode decidir. Nos países ricos, a maior parte das mortes por covid ocorre em lares para idosos, enquanto a idade média nos países mais pobres é muito menor. Isso confunde muitos especialistas. Pesquisas estatísticas indicam que, após os 30 anos, as chances de morrer de covid quase dobram a cada oito anos adicionais de vida. As imunidades residuais podem permanecer de doenças anteriores. A alta mortalidade cobiçada no México, África do Sul e Peru contrasta com a baixa mortalidade relatada na Nigéria e na Índia. Previa-se que a Nigéria sofreria 200.418 mortes de covid em 2020, mas o número relatado estava abaixo de 1.300. Em Lagos, a Dra. Abiola Fasina dirigia um hospital de campo para pacientes em pânico onde, ela disse, “estávamos 70% ou 90% ocupados. Quando passei por essas enfermarias, lembro-me de que os pacientes eram em sua maioria assintomáticos ou levemente sintomáticos. Mas como a pandemia continuou, a maioria dos pacientes permaneceu levemente sintomática. Está tudo bastante ameno aqui. ”

     Os efeitos da vacinação na prevenção da disseminação e recorrência de covid-19 permanecem incertos. A rápida mutação das variantes do coronavírus ameaça a eficácia das vacinas. Uma epidemia de rápido crescimento na África do Sul levou à descoberta de uma mutação potente - chamada 501Y.V2 - que rapidamente se espalhou para a Grã-Bretanha, Estados Unidos e outros países. Outra variante emergente em Manaus, o principal porto do rio Amazonas, impactou rapidamente outras cidades do Brasil. Se essas variantes puderem reinfectar pacientes imunizados, observou Tulio Oliveira, da Universidade de KwaZulu Natal em Durban, África do Sul, “toda a ideia de imunidade coletiva se tornaria um sonho, pelo menos de infecção natural”. Aqui está um roteiro do desenvolvimento mundial de Sars-CoV-2 desde dezembro de 2019, desenhado por The Economist:

     Recentemente, a relação entre casos e mortalidades tem caído ao redor do mundo, mas os epidemiologistas agora temem mais ondas de infecções após o desaparecimento da onda inicial, assim como as infecções recentes em Israel e na Europa, repetindo os passos do século anterior, testando a capacidade institucional de muitas cidades e nações. De acordo com um estudo do MIT, informações de 84 países sugerem que houve 12 vezes mais infecções globais e 50% mais mortes do que as registradas. Excesso de mortalidade, diferenças nas taxas de mortalidade entre anos epidêmicos e anos normais, são medidas úteis para que as mortes sejam contadas e explicadas. Mas em grandes áreas da África, as mortes não são registradas. No Peru, onde a mortalidade cresceu na pandemia, 74% do aumento das mortes não foram ligadas a covid-19.

     Contradições aparecem frequentemente. No Brasil e nos Estados Unidos, assim como em muitos outros países, diferenças drásticas aparecem no momento e na intensidade dos surtos entre diferentes localidades e regiões. Governos municipais e estaduais enfrentam cortes enquanto lidam com novas demandas da saúde pública e do bem-estar social. Contrastes se evidenciam entre comunidades ricas e pobres, entre grandes e pequenos países, entre nações com instituições fortes ou fracas, e entre etnias, reforçando a desigualdade. A riqueza pode ajudar, mas não é decisiva. A negligência pode ser desastrosa. As democracias europeias, como Itália, Espanha e França, foram gravemente atingidas, mas se recuperaram rapidamente devido à sua coerência institucional e capacidade de ação focalizada, mas mesmo assim sofreram novas ondas de contágio em uma escala menor. Alguns lugares mais pobres, como o Vietnã e o estado indiano de Kerala, evitaram o desastre ao adotar rapidamente estratégias que funcionaram bem em epidemias anteriores nos países vizinhos. Por outro lado, a Suécia ignorou restrições públicas e testagens até que a covid forçou uma mudança política, seguindo os vizinhos europeus. Nações continentais, como Estados Unidos, Brasil, Índia e Rússia são menos capazes de ação rápida e coerente devido à escala e complexidade de suas sociedades. Brasil e EUA em 2020 sofreram seu primeiro crescimento de mortalidade desde a Segunda Guerra Mundial. O excesso de mortalidade na Rússia em relação aos anos anteriores, impulsionado principalmente pela covid, é o maior entre os países avançados. Continuamos confusos com altos e baixos e ziguezagues nos desenvolvimentos da covid-19. Grandes ondas nos afligiram, seguidas de vales, apenas para surgir novamente nos Estados Unidos, Brasil, índia e Europa, entre outras regiões afetadas.

 

Norman Gall é diretor-executivo do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial