Circulos de Leitura e APAE: o mundo dos livros é para todos

     "Aqueles que não têm o domínio da leitura codificada, conseguem ler as imagens, escutar os colegas lendo… Tudo isso é uma forma       de leitura.” (Regiane Silva, professora da APAE Juazeiro do Norte).

     Por Maria Júlia Miranda em 12/07/2021

O projeto “Teatro na sua janela virtual”, da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) Juazeiro do Norte, no Ceará, foi o despertar de Edênia Araújo, responsável pelo Programa Círculos de Leitura na Crede 19. Assim, em abril do ano passado, o Programa selou sua primeira parceria com o Atendimento Educacional Especializado (AEE).

 

A professora de teatro da organização social que promove atenção integral à pessoa com deficiência intelectual e múltipla, Cícera Regiane Silva Rodrigues, que meses antes havia participado de um encontro do Círculos de Leitura como contadora de histórias, viu seu desejo de levar o projeto para a Apae se tornar realidade.

 

Formada em educação física e pedagogia, Regiane, que trabalha há 19 anos na instituição, afirma que o Instituto Braudel acredita no potencial das pessoas, já que “muitos programas chegaram na Apae, mas se perderam no caminho”. Ela conta que o maior medo dos alunos era o de não saber ler e hoje, eles compreendem que ler não significa só pegar os livros e codificar.

 

Juazeiro do Norte

Localizado na região do Cariri, a 491 km de Fortaleza, o município de Juazeiro do Norte é considerado um dos maiores centros da religiosidade popular brasileira e reconhecido pela literatura de cordel.

Assim como Croatá, a cidade nasceu ao redor de uma capela em e inicialmente era a província de Crato, hoje um município vizinho. A construção do templo em culto a Nossa Senhora das Dores em 1827 e a disponibilidade de terrenos ao seu redor atraíram algumas famílias. Assim, cresceu o povoado de Tabuleiro Grande que se tornou o distrito de Crato.   

Anos mais tarde, com a chegada do padre Cícero, a região se desenvolveu e se tornou mais importante que a sede. Em 1914, após a emancipação, virou cidade e anos depois ganhou seu nome completo: Juazeiro do Norte, que hoje tem população estimada em 276.264 habitantes.

 

As travessias

 

Por enquanto, há apenas uma turma com 15 jovens entre 24 e 45 anos. O Círculos de Leitura chegou na Apae Juazeiro como “um presente desafiador”, mas quando tiveram o primeiro encontro, que contou com a presença de Catalina Pagés, fundadora do programa, tudo fez sentido. Ela mostrou que é para todos, “sempre falava para não termos pressa” e para os alunos soava como "você pode no seu tempo”.

 

Sobre o andamento dos encontros, Regiane comenta que faz adequações para que eles possam compreender e interagir com os textos. Nos primeiros encontros ela colocava slides com as fotos deles para que soubessem sua hora de falar. Mas, “hoje, com um avanço tão significativo, eles conversam normalmente”.

 

Depois da chegada do Círculos, ela fala sobre as diferenças socioemocionais “Eu percebi neles uma maior expressividade e uma conexão com os textos, eles se tornam parte”. Além dos alunos terem mudado sua forma de se enxergar no mundo, tendo orgulho e falando espontaneamente que participam, as famílias também foram alcançadas, “já está indo além dos alunos”.

 

Além dela, Sandra Sobreira, professora, e Ana Elisabete Dantas e Priscila Melo, coordenadoras pedagógicas, compõe a equipe à frente do programa. Regiane fala sobre sua experiência: “Quando eu me senti parte disso, eu evoluí como ser humano. Me dá abertura e flexibilidade para que eu possa me trabalhar e trabalhar os alunos”

 

Quebrando barreiras

 

Silvana dos Santos Nascimento de 24 anos, portadora de deficiência intelectual, frequenta a Apae Juazeiro do Norte desde criança. No entanto, sua condição nunca a impossibilitou de frequentar escolas regulares, por isso, seu tempo sempre foi dividido em outras escolas.

 

No ano passado, com a implementação do Programa Círculos de Leitura, a professora Regiane convidou Silvana para participar dos encontros. “Desperta nos alunos a vontade de ler e aprender e de, quem sabe futuramente, ir para uma escola regular e conseguir o ensino superior como eu. A Apae precisa disso”, afirma.

 

Depois de passar pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) para recuperar o tempo que ficou afastada da escola devido a alguns problemas de saúde, ela sentiu que precisava voltar a estudar. Assim, se formou no ensino médio pela escola Adauto Bezerra. Mas queria mais. No ano passado, já em meio a pandemia, prestou seu primeiro Enem e garantiu sua vaga no ensino superior.

 

Silvana está vivendo a realização de um sonho. Utilizando a cota para  pessoas com deficiência, ela colocou sua nota no SISU e conseguiu passar em Educação Física no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE) de Juazeiro. “Eu nunca nem pensei, porque minha família nunca cursou uma universidade e logo eu, a que tem deficiência, sabia que seria mais difícil”, conta.

 

Quando começou a participar do Círculos de Leitura, já tinha passado na universidade, mas fala da importância em sua trajetória e na de seus colegas: “Estão começando a acreditar que conseguem aprender a ler e compreender o texto e eu quero ajudar no que for preciso para que eles saibam que eles conseguem como eu consegui”.

 

Dos dois lados da moeda

 

Sandra Sobreira Barbosa, formada em língua portuguesa e pós graduada em educação especial com ênfase em Atendimento Educacional Especializado (AEE) é professora na Apae Juazeiro há 16 anos e mãe de Samara Kelly Sobreira Barbosa, portadora da síndrome rara do Triplo A ou Allgrove.

 

A professora conheceu a Apae quando começou a levar a filha para realizar tratamentos clínicos e outras atividades. Por uma questão de logística, a espera diária pelos atendimentos da filha levou Sandra a se voluntariar e depois virar professora, cargo que ocupa até hoje.

 

Sobre o desenvolvimento da filha depois do Círculos de Leitura, Sandra conta que há um sentimento de pertencimento em “saber que estão participando de um projeto nacional que tem muitas outras escolas”. Samara se sente muito importante, incluída e capaz, “pra mim veio como uma luva nos dois casos: como professora e como mãe”, afirma.

 

Sobre o Círculos de Leitura, Sandra fala que quando foi apresentada ao projeto se encantou, “porque tudo o que incentiva eles [alunos] a crescer é bom pra nós”. Ela percebe a euforia dos alunos para os encontros e um maior desejo de ler. Além disso, fala dos benefícios como professora: “Quando vem um projeto diferente, abre os horizontes. A leitura faz isso, melhora a gente como um todo”.

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