• Redação

A expansão do conhecimento


No dia 11 de maio de 2019, o Instituto Braudel promoveu mais um encontro para leitura e discussão do livro “O novo iluminismo: em defesa da razão, da ciência e do humanismo”, de Steven Pinker, capítulo 16 – Conhecimento.


A expansão do conhecimento

Antes de iniciarmos a discussão, foi chamada a atenção para o fato do capítulo 16 ser intitulado knowledge no original, o que difere da palavra “Conhecimento” escolhida para a tradução no português. A palavra “saber” estaria mais próxima de knowledge e tem um sentido diverso.


Logo no início do capítulo, Pinker nos lembra de que a espécie homo sapiens há séculos se utiliza do conhecimento para vencer a entropia. Considerando que a entropia é uma tendência natural ao caos e à desordem, é fundamental consolidar conhecimentos que permita um mundo mais previsível e organizado.


Um trecho chamou bastante a atenção do grupo: A supernova do conhecimento redefine de forma contínua o que é ser humano. Nesse trecho, fica claro que a sociedade se molda de acordo com os conhecimentos de cada época. Por exemplo: antes da agricultura, os seres humanos viviam de forma mais limitada, de forma nômade; com os conhecimentos da agricultura, toda a sociedade se transforma e passa a funcionar de outra maneira. A supernova referida nesse trecho se refere aos booms de conhecimento que mudam toda a sociedade. Alguns exemplos de supernovas são a agricultura, a escrita, a descoberta dos metais, a astronomia, a revolução industrial e os smartphones.


Todos esses conhecimentos foram difundidos ao longo do tempo de forma cada vez mais democrática, de maneira que tecnologias que outrora eram muito caras, como os próprios celulares, hoje são acessíveis para grande parte da população.


Em algum momento de nossa história, especialmente com a universalização da escolarização, o conhecimento deixa de ser um privilégio das elites e da igreja para se tornar um direito da população. Além da difusão de conhecimentos gerais, vê-se nos últimos anos uma diversidade maior de pesquisadores e cientistas, o que também diversifica o tipo de conhecimento produzido. A democratização do conhecimento na história da humanidade é fundamental, pois é graças ao avanço do conhecimento que o local e condições de nascimento não são, necessariamente, determinantes para o futuro de uma pessoa.


Educação e populistas

Em determinado ponto, Pinker afirma: Quantas mudanças quando se adquire educação! As pessoas desaprendem superstições perigosas, como as de que os governantes mandam por direito divino ou as de que pessoas que não se parecem com elas são menos humanas. (…) Aprendem que salvadores da pátria carismáticos levaram seus países ao desastre. Uma vez que a educação tenha o potencial de formar pessoas que, a princípio, não votariam em populistas, o que explica o fato de pessoas bem instruídas terem escolhidos “salvadores da pátria” para o governo no Brasil e nos Estados Unidos? Ou como explicar que uma população altamente educada como a inglesa tenha votado a favor do Brexit?


Primeiramente, é preciso ter em mente que ter acesso à educação formal, mesmo nos seus mais altos níveis como mestrado e doutorado, não significa que seja uma educação libertadora, que forme cidadãos sensíveis e com forte senso crítico. Além disso, tratar a política como uma religião/crença, questões relacionadas à identificação do eleitorado com os princípios de um populista e a irracionalidade podem se sobrepor a uma análise crítica que viria de uma boa educação. Um bom exemplo disso é citado no próprio capítulo, quando se fala em “fatos alternativos”[1]: pessoas muito bem instruídas acreditaram no “fato alternativo” de que houve mais pessoas na posse de Donald Trump do que na de Barack Obama. Isso mostra que, em certos casos, as pessoas acreditam no que querem, e não necessariamente no que os dados mostram, a despeito de terem tido acesso à educação de alta qualidade.


Para além das questões relacionadas ao acesso à educação, há outros fatores que explicam os eleitores de Bolsonaro, Trump e aqueles que defenderam a saída do Reino Unido da União Europeia. No caso da vitória de Trump, o grosso de seu eleitorado se encontrava nos chamados “Estados vermelhos”, no centro dos Estados Unidos, cuja população é majoritariamente republicana. Tratam-se de Estados com porções ainda bastante agrárias, com uma população que convive muito pouco com imigrantes e que sofreu as consequências do desemprego dos últimos anos.


No Reino Unido, vale lembrar que os favoráveis ao Brexit eram não-londrinos, uma população que se sentiu deixada para trás. Vivendo em cidades outrora industriais e com forte atividade de mineração, essa população viu suas comunidades perderem competitividade frente às rápidas mudanças no cenário econômico-financeiro mundial que tem como seu epicentro a capital, Londres.


No caso do Brasil, vale lembrar que as eleições de 2018 foram tomadas por surtos de irracionalidade no qual as pessoas sentiam que tinham que escolher um grupo para não ser identificado com outro. Assim, pertencer ao grupo dos “não-comunistas” e “não-petistas” se tornou mais importante do que tomar uma decisão mais crítica e racional.


QI – quociente de inteligência

Mais à frente, Pinker mostra em um gráfico como o QI (quociente de inteligência) aumentou nas populações de todo o mundo com o passar dos anos.



O QI é objeto de muita discussão e polêmica. Uma questão que se coloca é: qual a relação de QI, esforço próprio e estímulo? Uma criança com um alto QI que não tenha as devidas oportunidades pode acabar na mediocridade, sem ter todo o seu potencial desenvolvido. Um bom exemplo disso está no livro “Fora de Série – Outliers”, de Malcolm Gladwell. O livro mostra um grupo de pesquisadores que acompanhou a trajetória de algumas crianças com alto QI a partir dos seus 5 anos de idade até a vida adulta. Ao contrário do que se pensava, nem todas essas crianças tiveram seus talentos plenamente desenvolvidos na vida adulta, provando que um alto QI, por si só, não é garantia de sucesso pessoal e profissional.

Além disso, o QI não mede a curiosidade de uma pessoa e sua capacidade de fazer contribuições ao mundo. Atualmente, é largamente reconhecido que há outros tipos de inteligência para além da cognitiva.


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