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  • Redação

Política Como Vocação

“Política como vocação” é um artigo resultado de uma palestra ministrada por Max Weber em 1919 na Universidade de Munique, na Alemanha. Antes de adentrarmos no texto, foi apresentado ao grupo alguns aspectos da vida e obra de Weber, assim como o contexto em que o sociólogo esteve inserido.


Weber nasceu em 1864, na segunda metade do século XIX. Nessa mesma época, nasceram grandes figuras que se destacaram em diferentes atividades humanas, como Albert Einstein (1879), James Joyce (1882), Franklin Roosevelt (1882), Joseph Schumpeter (1883), John Keynes (1883), Thomas Mann (1875), dentre outros. Isso não é uma mera coincidência; havia um ambiente propício para o nascimento e evolução de grandes mentes. Esta foi uma época de comércio intenso, de expansão da grande imprensa – que possibilitou a edição e circulação de jornais diários a preços muito acessíveis -, de expansão do ensino público com altos índices de alfabetização na Europa e do florescimento da literatura.


Muitos desses grandes homens viveram a 1ª Guerra Mundial, que tem por resultado o desmanche do Império Austro-Húngaro e um período de hiperinflação, especialmente em países como a Alemanha. Max Weber não viveu essas consequências, pois morreu em 1920, vítima da epidemia de gripe espanhola. Nessa época, muitos grandes economistas da Europa central fugiram para os Estados Unidos, como Schumpeter e Keynes, ensinando em grandes universidades, mudando radicalmente o pensamento econômico americano e participando ativamente das ações engendradas por Roosevelt no New Deal após a crise de 1929.


O Estado e o monopólio da violência

No início do texto, Weber traz uma premissa que se tornou muito conhecida no campo da sociologia: a de que o Estado possui o monopólio da violência física legítima. Isso nos lembrou o primeiro livro trabalhado no colóquio “As origens da ordem política”, no qual Francis Fukuyama retrata o início do Estado organizado. Simplificando o conceito, houve um tempo em que a sociedade era basicamente grupos e clãs distintos brigando entre si e o surgimento do Estado (representado pela figura de um monarca ou governante) veio como opção de proteção para esses clãs, desde que eles aceitassem que apenas o Estado poderia controlar e aplicar a violência.


Um Estado com exército, polícia e sistema judiciário seria um Estado que possui o monopólio da violência, ao contrário de um Estado em que a população faz justiça com as próprias mãos, mergulhado em um caos total.


Diante dessa premissa, o grupo se questionou se o Brasil é, de fato, um Estado com monopólio da violência. Em tese, pode-se dizer que sim, uma vez que o Estado brasileiro pode exercer a violência de forma legítima quando faz julgamentos, condenações, prisões etc. Porém, em alguns territórios, principalmente naqueles onde o Estado não chega com serviços básicos como saúde, educação e saneamento, a população acaba legitimando outras forças como detentoras do monopólio da violência, como as milícias e o tráfico, por exemplo.


Tipos de domínio

Em outro trecho, Weber nos apresenta os três tipos de domínio exercido pelo Estado sobre uma população: o patriarcal (exercido majoritariamente por monarcas e príncipes), o carismático (aquele exercido por profetas, por exemplo) e o legítimo (representantes eleitos por vias legais).


Nesse ponto, debatemos a diferença entre liderança e legitimidade política e um exemplo recente ilustra muito bem tais conceitos: as figuras de Lula e Michel Temer. Mesmo preso, Lula ainda é considerado uma liderança por seus seguidores. Ele é, inclusive, referenciado por alguns como “presidente Lula” e uma parcela da população acredita em sua inocência e que, um dia, ele ainda será novamente presidente do país. Michel Temer, por outro lado, se utilizou de meios, a princípio lícitos e democráticos, para se tornar presidente, mas não era reconhecido como uma liderança por uma parte da população.


Outra reflexão importante nesse trecho é o caso de políticos que tomam o governo do país de forma ilegítima, através de um golpe militar, e ficam anos a fio no governo, consolidando um discurso que legitima seu golpe. Isso ocorreu em muitos países da América Latina. Um exemplo é Fujimori, no Peru, que foi eleito de forma democrática e deu um “autogolpe”, desmanchando o congresso, sob o discurso de que os parlamentares, em plena crise econômica do país, decidiram aumentar seus próprios salários, em uma demonstração de incapacidade de governar o país.


Em outro artigo denominado “Economia e Sociedade”, Weber dá outro nome a esses três tipos de domínio: domínio pelo hábito, pela troca e pela crença. Este último se aproxima muito do domínio carismático, uma vez que este líder “é considerado pessoalmente como o líder interiormente ‘vocacionado’ dos homens, que esses não se submetem a ele por força dos costumes ou dos estatutos, mas porque acreditam nele”. (pg. 65)


Viver da política x Viver para a política

De acordo com Weber, é possível distinguir dois tipos de pessoas: aquelas que vivem para a política e aquelas que vivem da política. No primeiro tipo, entram aqueles que não dependem de um cargo político como fonte de renda, ou seja, as pessoas ricas, que, em teoria, poderiam se dedicar inteiramente à política de forma genuína, pois não teriam interesses econômicos nela. As pessoas que vivem da política são aquelas que veem na política uma fonte de recursos e a tornam sua profissão.


Esse trecho é bastante problemático por uma série de questões. Primeiro porque dá margem para a ideia preconceituosa de que pessoas ricas estariam mais habilitadas a entrar na política, pois não roubariam por já terem suas posses, enquanto uma pessoa pobre não poderia fazer o mesmo, pois veria na política um meio de garantir sua vida financeira e de fazer desvios. Tal ideia não poderia estar mais errada, pelo menos no que concerne o contexto brasileiro, pois tivemos inúmeros casos de pessoas abastadas que, ao entrarem na política, roubaram grandes quantias de dinheiro. Da mesma forma, há pessoas de classes mais baixas que entram na política e se provam honestas.


Outro ponto é que mesmo uma pessoa rica precisa sim de recursos públicos para se eleger. Um exemplo é Donald Trump que, mesmo sendo um empresário muito rico antes de ser presidente dos Estados Unidos, precisou de recursos públicos para sua campanha. Além disso, há indícios de que ele tenha desviado verbas públicas para uso próprio.


Esse tipo de raciocínio também abre margem para populistas. Há políticos ricos que se elegem prometendo doar seus salários ou diminuir drasticamente suas regalias. Porém, esses mesmos políticos podem criar projetos de lei que favoreçam as empresas nas quais eles tenham negócios.


Por fim, quando Weber fala dos tipos de domínio, ele deixa de citar um extremamente importante: o domínio econômico, do qual Marx falará mais tarde. Weber destaca que a política é, antes de tudo, participar do poder ou da distribuição de poder. Assim, há pessoas que entram na política não porque vão ganhar um alto salário como deputado, por exemplo, mas, sim, porque esse cargo lhe permitirá participar da cúpula do poder, inclusive econômico, dando-lhe a possibilidade de tomar decisões que favoreçam um grupo específico ao qual pertence ou ao qual deva favores.


A política e o jornalismo

Em determinado trecho, Weber dedica várias páginas destrinchando a relação entre jornalismo e política. Esta é uma relação com muitos meandros, uma vez que o jornalismo convive com a política, mas não necessariamente depende dela. O fato é que a imprensa, por muito tempo, teve poder de colocar a população a favor ou contra seus governantes, seja exaltando as ações destes, seja denunciando casos de corrupção. Vale lembrar que, via de regra, nas ditaduras, há uma grande preocupação por parte dos ditadores em silenciar a mídia, definindo o que pode ou não ser divulgado nos jornais e de que forma isso deve ser feito.


Esse longo trecho do artigo lembra o filme “Cidadão Kane”, um clássico estrelado por Orson Welles. O filme é, supostamente, baseado na vida do magnata do jornalismo William Randolph Hearst, e conta a história e a ascensão de um mito da imprensa americana. De garoto pobre no interior a magnata de um império do jornalismo e da publicidade mundial.

Até algum tempo atrás, a imprensa e a mídia no geral eram consideradas “o quarto poder”, uma expressão utilizada de que a mídia exerce tanto poder e influência em relação à sociedade quanto os três poderes nomeados em nosso Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário). Hoje, vivemos uma crise no jornalismo: além do jornal impresso estar se tornando peça rara e as pessoas estarem cada vez menos informadas, temos o caso de governantes que desdenham da mídia de seu país.


Tanto Trump quanto Bolsonaro têm uma mesma estratégia midiática, de se comunicar diretamente com seus eleitores através das redes sociais e acusar a grande imprensa de ser mentirosa, especialmente quando esta publica notícias e reportagens que não lhe são favoráveis. Para os jornais que fazem checagem de fatos e reportagens profundas, é muito difícil conseguir lutar contra isso. A questão é que o jornal é um referencial. O fechamento de grandes jornais significaria uma perda civilizatória muito grande para a população.


Mesmo diante de uma crise jornalística, as pessoas continuam buscando informações de qualidade em fontes confiáveis e honestas para formar suas opiniões. Weber afirma que a carreira jornalística não é para “pessoas de caráter fraco” e posteriormente retoma esta ideia do caráter ao falar da carreira política.


A figura do “Prefeito médico”

Weber segue expondo a estrutura dos partidos políticos na democracia moderna. Neste contexto aparece a figura dos “chefões” da política, ou bosses como aparece no texto. Conversamos sobre a presença desse tipo liderança política brasileira e no debate também inserimos uma outra figura, neste caso particular do Brasil, que é a do “Prefeito médico”. Mais comumente encontrada no nordeste do país, esta figura seria um exemplo de um político que assume o cargo por vocação. O médico, que também é prefeito, alimenta a figura do homem que cuida, que se preocupa com o indivíduo, que possui senso de liderança regional e conhecimento acadêmico. Esta associação faz com que a figura deste político ganhe força e legitimidade, termo explorado por Weber em seu artigo. O “prefeito médico” é reconhecido como uma liderança pelo povo, que legitima seu poder pelo carisma e pela relação próxima que estabelece com seu povoado


O político ideal

No artigo, Weber aponta três características necessárias para o tipo ideal de político: a paixão, o sentimento de responsabilidade e de percepção. Esta última qualidade também aparece na tradução como “acuidade visual” e significa a capacidade de manter certa distância dos acontecimentos que se desdobram na realidade com tranquilidade interior. Além disso, ele fala de um inimigo que este político precisará enfrentar: a vaidade. O grupo discutiu sobre o possível romantismo que esta passagem do texto carrega. Contudo, o que Weber explicita é a importância do caráter e da inteligência emocional, tão falada nos dias atuais quando o assunto é liderança.


Nesta passagem no texto, surgiu a pergunta: Por que não emergem novos líderes? A liderança traz consigo muita responsabilidade. Antes de entrar na vida política, Weber conclui que é preciso ter consciência dos paradoxos éticos que surgirão, da responsabilidade para lidar com os “poderes diabólicos” e da pressão e tensão do contexto social que o futuro líder político pode enfrentar. No encerramento do Colóquio, foi citada uma edição do Café Filosófico em que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso comenta sobre este artigo e ressalta a veracidade das colocações de Weber para a compreensão do nosso atual contexto político.